Salve Jorge!
A Fundação Casa de Jorge Amado lança o “Salve Jorge!”, um projeto chave para a preservação digital do acervo documental de Jorge Amado. A obra de Jorge Amado, “antropólogo da terra da mestiçagem”, tem lugar garantido na literatura universal e é lida em mais de 50 países.
Serão digitalizados aproximadamente 13 mil documentos, dentre datiloscritos (originais de livros) e fotografias, pertencentes ao acervo do escritor. Além de estender a sobrevida dos documentos – através da redução do manuseio dos originais –, o acervo será salvaguardado através do armazenamento em diferentes localidades geográficas.
“Salve Jorge!” procura disseminar a produção literária e facilitar os estudos e pesquisas sobre a literatura baiana. O material digitalizado estará disponível ao público no site da Fundação e poderá ser consultado também na sua sede física, no Pelourinho, através de terminais do tipo Smart Touch, em consultas interativas.
Preservação digital
A preservação digital ainda é pouco abordada no Brasil e no exterior, apesar de ser uma questão que vem sucitando preocupações em organismos de todo o mundo. A rápida obsolescência da tecnologia e a fraglidade e complexidade desse tipo de preservação são questões de grande relevância numa sociedade com crescente dependência da informação digitalizada. Há três anos, foi lançada a Carta de Preservação do Patrimônio Digital da UNESCO, que fazia um apelo para que os países membros adotassem um conjunto de medidas a fim de evitar o desaparecimento do legado digital.
Alinhando-se a esta perspectiva de estudos, a Fundação Casa de Jorge Amado cria o “Salve Jorge!”. Com patrocínio do BNB – Banco do Nordeste do Brasil, o objetivo é não apenas digitalizar documentos, mas criar uma política de preservação segura.
A idéia
O projeto “Salve Jorge!” foi concebido por Albano Souza Oliveira, pesquisador na área de Memória, Preservação Digital e Modelagem do Conhecimento. Doutorando do Programa Multi-institucional e Multidisciplinar em Difusão do Conhecimento (DMMDC/UFBA), Albano é professor de pós-graduação do curso de especialização em Engenharia e Gestão do Conhecimento da UFBA.
Albano explica a necessidade da preservação digital nos dias de hoje fazendo uma comparação:“Podemos ao acaso encontrar um pequeno pedaço de papel, uma foto dentro de um livro, ou rascunho de idéias “preciosas” guardadas em uma gaveta escura, “no fundo do baú”, há muito tempo esquecido por nós, e, assim, resgatar pensamentos e imagens. Mas o mesmo não viria a acontecer se estivessem estes elementos na forma de objetos digitais, ou melhor, poderemos até encontrar aquele disquete guardado há muito tempo, mas nada garante que os nossos computadores atuais poderão lê-los e traduzir as informações neles contidas... Devido ao exponencial crescimento tecnológico, as “regras do jogo” mudam muito rapidamente. Formatos de objetos digitais, plataformas de software, modelos de hardware, tudo parece se transformar muito rápido”.
A questão do desaparecimento do legado digital requere atenção de múltiplas disciplinas. Além de interessar a especialistas em Arquivística, Biblioteconomia e Ciência da Informação, atravessa as áreas de Administração Pública e Privada, de Engenharia, de Tecnologia da Informação, de Biologia, de Química, Direito e, como no caso da Fundação Casa de Jorge Amado, também a Arte.
Podemos considerar que o problema se descortina em vários aspectos:
1. degradação dos bits – efeitos físico-químicos e eletro-magnéticos;
2. obsolescência e vida curta das mídias;
3. obsolescência de formatos;
4. obsolescência e incompatibilidade de softwares;
5. obsolescência e incompatibilidade hardwares.
“O software e o hardware definem condições necessárias à interpretação de um arquivo digital, de uma seqüência de bits, e estabelecem as condições do documento digital existir, o que, em uma perspectiva arquivística, poderia ser traduzido em: integridade, autenticidade e confiabilidade”, explica Albano Oliveira.
Casa de Jorge Amado
O projeto “Salve Jorge!” é coordenado por Myriam Fraga, diretora da Fundação Casa de Jorge Amado. A entidade – já com 23 anos – é, reconhecidamente, um dos mais importantes centros de produção cultural e editorial do país, mantendo vínculos com instituições de prestígio nacionais e internacionais.
Segundo Myriam Fraga, está é apenas a primeira etapa do projeto, possível graças ao patrocínio do BNB. O projeto máster foi concebido para viabilizar a digitalização de todo o acervo documental, que consta de mais de 250 mil itens, dentre correspondências, filmes, vídeos, registros sonoros, recortes de jornais e revistas. A diretora acrescenta ainda que a administração da Casa está em busca de outras parcerias interessadas em contribuir com a efetivação plena da proteção ao legado histórico literário deixado pelo escritor Jorge Amado para gerações futuras.
*foto: Alberto Coutinho/AGECOM
05/10/2009