90 anos de ‘Mar Morto’, o romance lírico-poético de Jorge Amado

| por Roberto Aguiar*

Há 90 anos, em 1936, Jorge Amado publicava ‘Mar Morto’, um dos romances mais líricos, simbólicos e sensíveis da literatura brasileira. Ambientada em Salvador, especialmente na região do porto e do centro histórico, a obra mergulha no universo dos marinheiros, saveiristas, estivadores e suas famílias, tendo o mar como força vital, mística e trágica; ao mesmo tempo sustento, destino e ameaça.

O porto de Salvador, cenário central do romance, é apresentado como o coração pulsante da cidade. Desde o período colonial, quando Salvador foi a primeira capital do Brasil, o cais desempenhou papel estratégico na economia, na circulação de mercadorias, pessoas e culturas. Em ‘Mar Morto’, essa movimentação constante aparece como parte orgânica da vida urbana: o vaivém das embarcações, o trabalho pesado no descarregamento, os encontros e despedidas, os amores e as mortes moldadas pela rotina do mar.

O centro histórico de Salvador, com suas ladeiras, igrejas, casarões e ruas próximas ao porto, não é apenas pano de fundo, mas um personagem vivo da narrativa. Jorge Amado constrói uma geografia afetiva da cidade, revelando uma Salvador popular, marcada pela convivência entre o sagrado e o profano, pela religiosidade afro-brasileira e pela cultura do povo do cais. Esse espaço urbano traduz a memória histórica de uma cidade moldada pelo mar e pelo trabalho portuário.

Entre as principais características do romance está a centralidade dos negros e negras como força de trabalho e como sujeitos da história. Descendentes diretos de africanos escravizados, são eles que sustentam a economia marítima, carregam sacas, conduzem saveiros, enfrentam as águas perigosas e mantêm viva a tradição do porto. Jorge Amado rompe com visões folclóricas ou marginalizadas e confere dignidade, humanidade e protagonismo a esses personagens, retratando suas dores, amores, crenças e esperanças.

O lado lírico-poético de ‘Mar Morto’ é um de seus traços mais marcantes. A prosa de Jorge Amado se aproxima da poesia ao transformar o mar em entidade viva, quase divina, profundamente ligada a Iemanjá. O texto é carregado de imagens sensoriais, musicalidade e emoção, compondo um verdadeiro canto ao povo do cais. O romance se constrói mais pela atmosfera e pelo sentimento do que pela ação, reforçando sua dimensão lírica e trágica.

A conjuntura histórica da escrita do romance também é essencial para sua compreensão. O Brasil vivia os anos iniciais do governo Getúlio Vargas, em um período de intensas tensões sociais, urbanização acelerada e profundas desigualdades. Embora ‘Mar Morto’ não seja um romance político direto, ele revela, de forma sensível, as injustiças sociais, a exploração do trabalho e a vida dura das camadas populares, especialmente da população negra.

Quando escreveu ‘Mar Morto’, Jorge Amado tinha apenas 24 anos. Jovem, mas já reconhecido no cenário literário, vivia intensamente a militância política e intelectual. Nascido em 1912, na Bahia, trazia uma ligação profunda com Salvador, com o povo simples e com a cultura afro-brasileira. Mesmo tão jovem, demonstra maturidade estética e sensibilidade social, consolidando uma escrita que une denúncia, poesia e humanismo.

Noventa anos depois, ‘Mar Morto’ permanece uma obra fundamental, não apenas como retrato da Salvador portuária e de seu centro histórico, mas como um romance que transforma o trabalho, a fé e a resistência do povo negro e dos homens e mulheres do mar em literatura de alta densidade poética e histórica.

*Roberto Aguiar é jornalista e assessor de comunicação da Fundação Casa de Jorge Amado