Cadê o derrubador de brancos? Os 90 anos da publicação de ‘Jubiabá’

| Por Evandro José dos Santos Neto*

“- Onde está o negro Antônio Balduíno que derrubava brancos?
– Quedê o derrubador de brancos?
– Quedê? Quedê?”

No ano em que a literatura celebra os noventa anos da publicação de Jubiabá, quarto romance de Jorge Amado, que tem como protagonista o negro Antônio Balduíno – o célebre Baldo –, a resposta para a sequência de indagações acima pode parecer óbvia, quando se considera o sucesso que a obra alcançou ao longo das décadas: transpondo as páginas do livro, Baldo está agora no panteão dos heróis populares, eternizados por trazerem em sua concepção uma mistura de coragem, lirismo, sensualidade e engajamento social.

Publicado em 1935, no auge da prosa romanesca da década de 1930, Jubiabá chega em 2025 extremamente atual, especialmente no que diz respeito a formas e temas utilizados no trabalho de criação literária – o que pode ser um indicativo do traçado vanguardista do então jovem Jorge Amado. Diferentemente de Cacau e Suor, trabalhos anteriores influenciados diretamente por interesses político-partidários, o romance está organizado em uma estrutura mais complexa, vinculada a um processo de elaboração que busca referências na literatura popular, na oralidade, na lírica, no mítico e no religioso, sem renunciar ao uso de estratégias do realismo crítico no modo como são apresentados os problemas sociais. Talvez tenha sido essa combinação a responsável por sua calorosa recepção.

Apontado pela crítica especializada como a primeira grande obra do escritor baiano, o lançamento contou até com um lisonjeiro depoimento de Lúcia Miguel Pereira – uma da críticas mais mordazes da literatura amadiana na década de 1930 –, no “Boletim de Ariel”, importante veículo literário da época: “Afinal, Jorge Amado cumpriu a promessa de País do carnaval e nos deu um romance de verdade”.

O romance trata da história de Antônio Balduíno, da infância sem regras no morro do Capa-Negro à militância política nos palanques grevistas. Tendo em vista as nuances da realidade social representada e o contexto sociopolítico da época, a escolha por um homem negro pobre para protagonizar uma obra romanesca evidencia a preocupação do autor em contribuir para a popularização da presença do negro na literatura, sobretudo em uma época em que o fazer literário era exercido predominantemente por homens brancos. A forma como são configuradas as vivências da personagem, no entanto, gerou discussões em frentes várias, as quais, ainda hoje, são motivo para apontamentos e acusações de cunho racial.

Ao deslocar os conflitos de um homem negro para a centralidade temática de uma obra literária, Jorge Amado lança luz às subjetividades desse sujeito e aos problemas derivados das práticas racistas enraizadas na sociedade brasileira; o modo como é desenvolvido o arco da negritude em determinados momentos, com o narrador tangenciando estereótipos e reproduzindo objetificações, contudo,  evidencia que apenas a boa intenção de um escritor branco não é suficiente para amainar o preconceito racial presente no pensamento geral.

Sem querer reduzir a discussão ao clichê do anacronismo que quase sempre simplifica o debate quando se trata de questões raciais e de gênero, é provável que parte dos problemas de representação envolvendo a população negra em Jubiabá esteja mesmo ancorada na expressão cultural e artística de uma intelectualidade que pouco refletia sobre letramentos críticos e que ainda se sentia irresistivelmente atraída pelo embuste da democracia racial. Logo, parecem ingênuos e apressados os argumentos que demonizam a presença de estereotipia em obras sobre negros, escritas por brancos, em 1930, na medida em que, involuntariamente, acabam suavizando a realidade da sociedade brasileira que foi – e continua sendo – indefensavelmente racista.

Descontando-se essas irregularidades da concepção, a negação à moral burguesa racista, vincada no desprezo à herança da escravização e na rejeição ao projeto ilusório da abolição, surge como a manifestação mais concreta do anseio por liberdade que caracteriza a composição de Antônio Balduíno. Sob essa disposição, elementos do candomblé, do samba, da capoeira, do lumpesinato, do cangaço e da malandragem são incorporados pelos registros orais, pela contação de estórias, pelas cantigas de roda e pela literatura de cordel, para trazer para o primeiro plano da ficção as experiências dos desesperançados, dos desvalidos, dos dissidentes, dos proscritos e de todos aqueles que a História enjeitou.

No âmbito da individualidade do protagonista, então, a pergunta “Quedê o derrubador de brancos?”, a qual, nas primeiras páginas da narrativa surge desafiadora e provocativa, invoca a natureza de Antônio Balduíno, aversa à domesticação, à submissão, ao paternalismo e a qualquer outro artifício de dominação engendrado pelos agentes do poder. Metonímia de um anseio coletivo, o desejo intenso por liberdade indica também a necessidade de emancipação e reparação de outras personagens que vivem às margens nesse mundo malfeito. Entre elas, destacam-se o pai-de-santo Jubiabá, difusor de uma fé criminalizada; Rosenda Rosedá, a dançarina que almeja o estrelato e alisa os cabelos para ser aceita; Luísa, a cozinheira que enlouquece por passar a vida inteira equilibrando um tabuleiro na cabeça; o religioso e otimista Gordo, que desatina ao constatar que vive em um mundo abandonado por Deus; Viriato, que encontra no suicídio o caminho para a libertação; e tantos outros que, resistindo à barbárie completa, driblam as tentativas de extermínio para fincar suas existências mutiladas no imaginário popular.

Também é significativo que o título do livro tome de empréstimo o nome do pai-de-santo Jubiabá. Ainda que não desempenhe um papel de protagonismo, pelo menos não de acordo com o formato tradicional, a presença do negro centenário cumpre importantes funções no desenvolvimento da narrativa. A sua concepção – um líder espiritual que sobreviveu ao horror da escravidão e agora transmite suas experiências aos mais jovens – não apenas indica que a tradição da oralidade africana é um eficaz mecanismo que mantém viva a cultura negra, mas também institui o candomblé como símbolo de luta e resistência.

Mais do que a perspectiva da revolução socialista com a qual Amado reveste as suas produções, é a mobilização desses elementos marginalizados pela cultura autoproclamada “oficial” que dá ao romance ares de insubordinação e insurreição. O que poderia ser mais transgressor em 1935 do que a revolta dos minorizados configurada na restritíssima forma romanesca? Considerando os significados sociais e políticos que podem ser retirados dessas manifestações culturais, a fatura da obra reflete, portanto, uma aproximação mais verossímil dos sujeitos históricos representados ao realismo crítico perseguido pelo autor – o que parece conferir mais coerência ao seu discurso ideológico.

As possíveis respostas para a provocação inicial poderiam, então, ser reformuladas: Antônio Balduíno, bem como o exército de subalternizados que a literatura brasileira ainda não deu conta de representar, continua ocupando o lugar da divergência e da dissonância. No Brasil de 2025, seu desespero e sua esperança podem ser vistos também nas novas histórias de escritoras e escritores que buscam internalizar na forma literária os sucessivos retrocessos, a ausência de garantias, o racismo institucionalizado, as constantes ameaças, a violência generalizada e a remota possibilidade de transformação. O abismo em sua versão atual é o indicativo mais eloquente de que, felizmente ou infelizmente, as críticas presentes em Jubiabá, inseridas em seu momento histórico, continuam atuais.

*Doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo – USP e professor adjunto de Teoria da Literatura e Literaturas de Língua Portuguesa na Universidade Estadual do Paraná – Unespar