60 anos de ‘Dona Flor e seus dois maridos’: liberdade, desejo e identidade baiana na obra-prima de Jorge Amado

| por Roberto Aguiar*

Publicado em 1966, ‘Dona Flor e Seus Dois Maridos’ completa 60 anos como um dos maiores clássicos da literatura brasileira e uma das obras mais emblemáticas de Jorge Amado, o maior escritor baiano e um dos nomes centrais da literatura mundial.

Ambientado em Salvador, o romance mergulha no cotidiano da capital baiana, revelando sua cultura popular, seus rituais, sabores, crenças e contradições, ao mesmo tempo em que constrói uma narrativa ousada, bem-humorada e profundamente crítica aos costumes sociais.

A obra é marcada pelo realismo mágico e pelo humor, elementos que se entrelaçam para explorar a tensão permanente entre as convenções sociais e o desejo individual. Em Salvador, cidade viva, múltipla e contraditória, o extraordinário é tratado como parte natural da existência, e o sobrenatural convive sem espanto com o cotidiano.

Primeira edição do livro ‘Dona Flor e seus dois maridos’ publicada em 1966 | Acervo Fundação Casa de Jorge Amado

Amor triangular
No centro da narrativa está o célebre triângulo amoroso. Após a morte de Vadinho, seu primeiro marido, boêmio, malandro e intensamente apaixonado pela vida e pelo prazer, Dona Flor casa-se com Teodoro Madureira, um farmacêutico correto, metódico, calmo e previsível. Contudo, o espírito de Vadinho retorna, visível apenas para Flor, instaurando uma relação singular: de um lado, o amor carnal, a paixão e o desejo; de outro, a estabilidade econômica, o respeito social e a segurança. A obra sugere que a felicidade plena só é possível com a união dessas duas dimensões, simbolizando o conflito e a complementaridade entre espírito e carne.

O realismo mágico se manifesta de forma naturalizada, especialmente no retorno do marido morto, aceito sem estranhamento na narrativa. Essa escolha dialoga diretamente com a atmosfera cultural da Bahia, onde o candomblé, a ancestralidade e o sobrenatural fazem parte da vida cotidiana. Jorge Amado descreve esse processo como uma espécie de “carnavalização” da vida de Dona Flor: uma ruptura das normas rígidas da moral burguesa em favor da liberdade, do prazer e da afirmação do desejo.

Florípedes Paiva, professora de culinária, cujos pratos saborosos funcionam como metáforas explícitas da sensualidade, representa a mulher pequeno-burguesa, recatada, educada para obedecer e se conter. No entanto, ao aceitar a convivência com seus dois maridos, Flor rompe com o padrão moral da sociedade conservadora, afirmando silenciosamente seu direito ao prazer, ao amor e à autonomia sobre o próprio corpo.

Manuscritos originais do livro ‘Dona Flor e seus dois maridos’ | Acervo Fundação Casa de Jorge Amado

Crítica social
A crítica social perpassa toda a obra. Jorge Amado retrata o “Brasil profundo”, com forte presença da cultura popular, da culinária, da religiosidade afro-brasileira e do ambiente descontraído de Salvador, em contraste com um Brasil burguês, cristianizado e moralista, representado pelas aparências sociais, pela repressão sexual e pelo julgamento constante.

Temas como liberdade, prazer e morte atravessam o romance. A sexualidade feminina, a repressão vivida por mulheres viúvas e a busca pelo prazer são tratados de forma direta e transgressora para a época. O ódio da mãe de Flor por Vadinho e o comportamento libertino do personagem intensificam o embate entre desejo e convenção, revelando o quanto o casamento e a moral servem como instrumentos de controle social.

Mais do que uma história de amor pouco convencional, ‘Dona Flor e seus dois maridos’ é uma celebração da vida, da identidade baiana e da liberdade feminina.

Jorge Amado, mesmo sendo um escritor homem, sempre deu protagonismo às mulheres, criando personagens fortes, complexas e à frente de seu tempo, como Dona Flor, Tieta, Tereza Batista e Gabriela. Mulheres que desafiam normas, rompem silêncios e afirmam o direito ao desejo, ao prazer e à própria voz.

Seis décadas depois, Dona Flor segue atual, provocadora e profundamente humana, reafirmando que não há contradição entre recato e paixão quando a liberdade é o princípio maior.

*Roberto Aguiar é jornalista, pesquisador das obras de Jorge Amado e Zélia Gattai e coordena a comunicação da Fundação Casa de Jorge Amado