‘Seara Vermelha’, 80 anos depois: Jorge Amado e o rio São Francisco seguem correndo pelo Brasil profundo

| por Roberto Aguiar*

Há rios que atravessam territórios e outros atravessam a história. O rio São Francisco, o Velho Chico das canções, dos vapores, dos barqueiros e dos retirantes, corre também por dentro da literatura brasileira: largo, sofrido e teimoso como o povo do sertão.

Em 2026, quando Seara Vermelha, de Jorge Amado, completa 80 anos de publicação, o romance ressurge como uma dessas obras capazes de iluminar o presente. E sua leitura ganha força especial diante do Dia Nacional em Defesa do Rio São Francisco, celebrado em 3 de junho. Porque o rio de Jorge Amado não é apenas água. É caminho. É memória. É sobrevivência.

O sertão de Jorge Amado: fome, estrada e esperança
Publicado em 1946, Seara Vermelha talvez seja um dos livros mais dolorosamente brasileiros escritos por Jorge. Nele, o escritor baiano abandona o cais úmido de Salvador, os becos do Pelourinho e os coronéis do cacau para mergulhar no sertão queimado pela seca, na poeira dos caminhos e na fome antiga dos retirantes.

Ali estão Jerônimo, Jucundina e tantos outros homens e mulheres expulsos da terra pela miséria e pelo latifúndio. Caminham sob o sol duro do Nordeste como quem carrega o próprio destino nos ombros. Famílias inteiras atravessam a caatinga em busca de comida, de pouso, de alguma esperança, enquanto o país moderno cresce distante, indiferente ao sofrimento sertanejo. E, silencioso, o São Francisco acompanha tudo.

Quando o Velho Chico corre dentro da literatura
O Velho Chico aparece no romance como aparecem os personagens fundamentais: sem precisar anunciar a própria importância. Surge nas travessias, nas margens povoadas de miséria e resistência, nas embarcações populares, nos caminhos do interior profundo. É rio de vida em meio à terra rachada. Rio de passagem para os que fogem da fome. Rio que testemunha o nascimento e a destruição de comunidades inteiras.

Em Seara Vermelha, Jorge Amado compreende algo essencial sobre o Brasil: não existe separação entre a luta do povo e a luta pela terra e pela água.

O São Francisco que atravessa a narrativa é o mesmo rio que durante séculos alimentou cidades, aproximou culturas, transportou sonhos e sustentou populações ribeirinhas, indígenas, quilombolas e sertanejas. Chamado de “rio da integração nacional”, o Velho Chico uniu regiões inteiras do país muito antes das estradas e dos grandes projetos desenvolvimentistas.

Rachel, Graciliano e Jorge: os modernos do sertão
Mas Jorge Amado não estava sozinho. Ao lado de escritores como Rachel de Queiroz e Graciliano Ramos, ele ajudou a construir uma das mais poderosas interpretações literárias do Brasil no século 20. Eram autores contemporâneos, filhos do modernismo brasileiro, mas profundamente enraizados na experiência nordestina.

Em 1930, Rachel de Queiroz publica O Quinze, romance pioneiro ao retratar a grande seca de 1915 e o drama dos retirantes cearenses. Tinha apenas 19 anos quando deu voz literária à fome, à migração e à devastação humana produzida pela seca e pelo abandono social.

Oito anos depois, em 1938, Graciliano Ramos lança Vidas Secas, talvez a mais cortante anatomia da miséria sertaneja já escrita na língua portuguesa. Fabiano, Sinhá Vitória, os meninos sem nome e a cachorra Baleia atravessam um Nordeste de silêncio, fome e desumanização.

Juntos, O Quinze, Vidas Secas e Seara Vermelha formam uma espécie de grande mapa literário do sertão brasileiro, um território atravessado pela seca, pela concentração de terras, pela violência dos coronéis e pela expulsão dos pobres.

Chamados de “regionalistas”, escreveram o Brasil inteiro
Eram romances modernos. Radicalmente modernos. Mas durante décadas, parte da crítica literária do eixo Sudeste insistiu em reservar para si o monopólio da “modernidade” brasileira.

Enquanto escritores ligados às grandes cidades industrializadas eram vistos como universais e cosmopolitas, autores nordestinos eram frequentemente reduzidos ao rótulo estreito de “regionalistas”. Como se falar da seca fosse menos moderno do que falar da metrópole. Como se o sertão não fosse também um centro nervoso do Brasil.

Havia, e ainda há, um preconceito profundo nessa divisão. Porque os romances nordestinos não tratam apenas de paisagens locais, tratam da estrutura social brasileira. Falam sobre terra, fome, migração, desigualdade, poder político e violência econômica. Falam, sobretudo, sobre um país construído pela exclusão.

Ao escrever sobre o sertão, Jorge Amado, Rachel de Queiroz e Graciliano Ramos escreveram sobre o Brasil inteiro. E talvez por isso essas obras permaneçam tão atuais.

Oitenta anos depois de Seara Vermelha, os problemas denunciados por esses escritores continuam atravessando o país: concentração fundiária; desigualdade social; destruição ambiental; expulsão de populações rurais; insegurança hídrica; pobreza estrutural; e migração forçada.

Também o rio São Francisco segue ameaçado. O Velho Chico enfrenta assoreamento, poluição, redução do volume de água, destruição de nascentes e impactos provocados pela mineração, pelas barragens e pelo avanço predatório do agronegócio.

Defender o São Francisco é defender o povo brasileiro

Defender o rio, portanto, continua sendo defender gente. Defender os pescadores. Os ribeirinhos. Os trabalhadores do campo. As comunidades tradicionais. Defender a memória cultural do sertão. Defender um modo de vida ameaçado pela destruição ambiental e pela concentração de riqueza.

E é justamente aí que Seara Vermelha permanece tão vivo. Mais do que um romance político, a obra é um grande canto de amor aos homens e mulheres anônimos do Nordeste brasileiro. Jorge Amado transforma retirantes em protagonistas da história nacional. Dá nome, voz e humanidade aos que quase sempre aparecem apenas como estatística da seca ou fotografia da pobreza. Sua literatura corre como o próprio São Francisco: extensa, popular, coletiva e profundamente brasileira.

Ao completar 80 anos, Seara Vermelha segue lembrando que o sertão não é vazio: é povo. E que um rio não é apenas um acidente geográfico, mas parte viva da memória de um país.

O Velho Chico continua correndo. E Jorge Amado continua escutando suas águas.


*Roberto Aguiar é jornalista, pesquisador das obras de Jorge Amado e Zélia Gattai e coordena a comunicação da Fundação Casa de Jorge Amado